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“Fica Pedro, Segue Pedro”

Atualizado: 11 de set. de 2020

#ParaTodosVerem A imagem é uma foto de D. Pedro Casaldáliga  e  retrata  a parte superior do corpo de  um homem idoso branco de cabelos ralos grisalhos  usando óculos de formato retangular, uma camisa  de mangas curtas azul claro com listras finas e um relógio prateado no pulso esquerdo. D. Pedro tem uma atitude pensativa com a mão esquerda no queixo e está encostado a uma parede de tijolos aparentes. Ao seu lado, uma bengala de madeira.

Mesmo parecendo paradoxal esse título, na realidade, são dois momentos diferentes em que me vejo escrevendo para D. Pedro Casaldáliga.


¨Fica Pedro¨ foi o título de um texto escrito, por ocasião de sua aposentadoria, quando o Vaticano pretendia transferi-lo de São Félix do Araguaia para outro lugar em que não exercesse influência sobre a Paróquia onde realizava sua pastoral e funções eclesiásticas. Isso representaria abreviar seus dias. E, em defesa de sua permanência, petições, notas de apoio endereçadas ao Vaticano e todo um movimento forte, fizeram com que lhe permitissem a permanência na “terra de barro vermelho” que ele escolhera para viver, lutar e morrer.


Nessa época, eu fazia parte de Diretoria da Associação dos Auditores Fiscais de Mato Grosso e redigi um texto para que o colega Presidente assinasse e publicasse em nome da categoria, em seu apoio.


Agora escrevo, ¨Segue Pedro¨, no momento em que nos despedimos dele para sua viagem ao mundo imortal, onde certamente receberá em paz e luz todas as condecorações que o mundo terreno não consegue lhe conferir. Então, em forma de prece, presto-lhe essa homenagem.


Estive com ele apenas quatro vezes, o suficiente para sentir toda a sensibilidade de um sacerdote humilde, sábio e generoso para com a humanidade. Não era apenas um Bispo, era um verdadeiro pai dos pobres, dos índios, dos injustiçados, da natureza. Ouso compará-lo com Jesus pois estava por onde Jesus andou, junto aos desvalidos, inclusive socorrendo e enxugando as lágrimas de mulheres num prostíbulo.


Viveu sob ameaça de morte sempre. Percorria as terras do Araguaia e adjacências, lutando pelos órfãos da terra, subjugados pelos poderosos, empresários e políticos incentivados a tomar posse do território, excluindo e extinguindo os rurícolas e indígenas, incentivados pela Ditadura que pretendia garantir-se naquelas fronteiras. Por mais que se fale, impossível descrever o ser Pedro Casaldáliga.


Em meados de 1996, chego a São Félix do Araguaia com uma equipe do Grupo Móvel e através da saudosa Trindade, então advogada da CPT, consigo a honra de visitarmos aquele ser tão emblemático. Apresento-me como Coordenadora do Grupo, dizendo-lhe da nossa tarefa e pedindo-lhe desculpas pelo Estado se fazer presente 25 anos após sua primeira denúncia sobre a existência de Trabalho Escravo no Brasil e no Araguaia. Tivemos uma noite de encantamento onde todos puderam ouvi-lo e fazer suas indagações. Ao final, nos leva à capela onde fazia suas orações e todos ficamos boquiabertos com a beleza de tamanha simplicidade. Fizemos uma oração e ele nos deixou livres, depois pousando com cada um para uma foto.


Antes de nos despedirmos fez uma bênção especial para cumprirmos nossa missão. E quando encerramos , um Agente da Polícia Federal me confidenciou, com lágrimas:

– Vim aqui para prendê-lo como comunista, à época da ditadura, e hoje a emoção de conhecê-lo e reverenciá-lo é indescritível. Segue Pedro, vai num raio de luz ocupar o lugar de honra que te cabe, de homem bom e verdadeiro sacerdote, em busca da paz e da justiça social. Jesus te recepcione e conforte nas tuas saudades!


Valderez Maria Monte Rodrigues

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