COVID-19: Quem devemos vacinar antes?

“A ordem de vacinação é copiada e colada do modelo americano e europeu de vacinação. Só que a sociedade brasileira não é a de um país acima da linha do Equador. Somos uma sociedade muito desigual, a oitava maior desigualdade do mundo. Vacinar com as mesmas regras desses países é de uma idiotice muito grande. Quem mais morre aqui são os pobres”

Gonzalo Vecina, Ex-Presidente da ANVISA[1]

Foto: José Leomar


1. Introdução


Diferentemente dos Programas Nacionais de Imunização que o país já foi modelo e de programas como o do Controle da Tuberculose, onde do Oiapoque ao Chuí todo sistema de saúde tem uma atuação homogênea em que suas diretrizes são seguidas, hoje convivemos com uma falta de Coordenação Nacional que possa nortear os 26 estados e o Distrito Federal, fazendo com que cada Secretaria Estadual ou Municipal de Saúde adote as condutas que mais lhes sirvam.


As palavras acima nos fazem refletir e adicionam à falta de coordenação outra falta que se refere a uma Diretriz Nacional de Vacinação contra a COVID-19, condizente com as desigualdades sociais e a pandemia que ocorrem aqui, e que contribui enormemente para o caos que o país está mergulhado desde o início da pandemia.


2. Quem vacinar antes


O número de trabalhadores de serviços essenciais expostos ao risco de se contaminarem com o vírus SARS-COV2 é alto. Dos trabalhadores dos transportes coletivos (bilheteiros, motoristas, cobradores, fiscais), dos serviços de supermercados (balconistas, promoters, e caixas), dos serviços de condomínios (porteiros, recepcionistas, auxiliares de limpeza, copeiras), dos bancários (caixas, gerentes, assistentes de caixas eletrônicas), dos trabalhadores de limpeza pública, seguranças, construção civil, dos trabalhadores de serviços funerários e os trabalhadores em saúde (tanto os profissionais de saúde, quanto o grande contingente de trabalhadores terceirizados de limpeza, segurança e refeitório) é alto o número de pessoas expostas.


Podemos acrescentar que um grande contingente destes trabalhadores são aqueles que estão na base da pirâmide social, trabalhadores em situações de vulnerabilidade, representantes daqueles indivíduos que tiveram pouco acesso à educação e que muitas vezes também representam a população negra e parda. Eles são hoje o maior número de acometidos e mortes de COVID-19 quando analisados os dados de forma estratificada (Santos et al., 2020).[2].


Se considerarmos as grandes capitais, ainda temos que levar em consideração um grande contingente de trabalhadores imigrantes e refugiados, alocados em trabalhos informais e sem nenhuma proteção social, seja previdenciária ou trabalhista, como inúmeros trabalhadores provenientes de países vizinhos como Bolívia, Peru e Colômbia no setor de confecção ou de trabalho informal como ambulantes nas ruas de São Paulo, como trabalhadores provenientes do Haiti e do continente africano. Dessa forma, há de se considerar os diversos custos sociais da pandemia, que se expressam diferentemente em nossa população e quando comparadas à outras.


Pesquisas recentes feitas no município de São Paulo apontaram uma grande variação dos índices de pessoas contaminadas com quase 10% de diferença entre os grupos de distritos, mostrando, por exemplo, uma soroprevalência em bairros com renda média mais alta de 21,6% e nos de renda média mais baixa de 30,4%. Isso também ocorre na relação raça/cor de pele, sendo a soroprevalência entre pretos e pardos (31,6%) quando comparadas com a dos brancos (20,9%), evidenciando que o aspecto das disparidades sociais influencia como população mais exposta as mais vulneráveis do ponto de vista étnico e social (SoroEpi MSP, 2021)[3].


Uma análise feita pela Escola de Saúde Pública da Johns Hopkins University sobre o número de indivíduos acometidos e mortos por COVID-19 nos EUA mostra uma grande quantidade de disparidades na saúde por raça, etnia e classe social ao longo da vida, em que comunidades latino-americanas e indígenas americanos sofrem de taxas mais altas de obesidade e diabetes do que os brancos. Na velhice, milhões de afro-americanos, indígenas americanos e latino-americanos mais velhos, sofrem mais do que os brancos mais velhos com doenças e deficiências. Essas disparidades de saúde são diferenças evitáveis ​​na carga de doenças, lesões, violência ou nas oportunidades de alcançar a saúde ideal vivenciadas por populações socialm